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O Mundo Sombrio de Sabrina (2ª Parte)

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Empoderada. Endiabrada. E Poderosa. Essas três palavras podem resumir a personalidade da nova versão sombria de Sabrina Spellman, a bruxinha querida do universo da Archie Comics que foi eternizada na pele da atriz Melissa Joan Hart na série de comédia dos anos 1990. Resgatada pela Netflix para uma versão mais sombria, a primeira parte d’O Mundo Sombrio de Sabrina chegou no Halloween do ano passado e trouxe um ar adolescente misturado a grandes referências a clássicos do terror, com direito a sacrifícios, exorcismos e muita magia, e a segunda parte, que estreou na primeira semana de Abril, vem para concluir a história começada em 2018.

Seguindo do momento que o especial de Solstício finalizou, Sabrina (Kiernan Shipka) abraçou seu lado sombrio que ela lutava piamente na primeira parte, e toda o desenvolvimento dela, até quase metade da segunda metade é a dualidade de, mesmo assinando seu nome no livro da besta, ainda ser uma mestiça, meia-mortal meia-bruxa, e o fato de ter assinado a coloca o sentimento de perigo iminente que ela traz a seus amigos mortais. Enquanto na primeira temporada ela relutava em abraçar as trevas, usando apenas quando necessário – ou último recurso para solucionar um impasse – toda a magia das trevas, a segunda metade ela já demonstra que não existe mais este impasse, ou uma parcela muito pequena.

Como já fomos bem apresentados a muitos conceitos básicos tanto na escola de Greendale, seus personagens, o Café Dr. Cerberus, a Academia de Artes Ocultas e a Igreja da Noite, a segunda metade não perde tempo em revisitar conceitos que já foram explicados, dando a sensação de realmente a história tanto da primeira quanto da segunda parte serem feitas como uma grande temporada padrão da televisão estadunidense – com seus vinte e poucos episódios – mas que foi dividida para os moldes mais flexíveis da plataforma de streaming, e isso mostra uma coesão perfeita entre as duas partes, que são separadas apenas pelo momento que Sabrina assina o livro.

A partir de agora toda a jornada, continuando utilizando a construção da primeira temporada, sendo voltada para explorar o motivo da ambição do Senhor das Trevas (Luke Cook) querer tanto Sabrina em seu coven. Ao mesmo tempo, aprofundamos no mistério acidente que matou os pais de Sabrina, e a influência e ideias do Padre Blackwood (Richard Coyle) e sua incursão para transformar a Igreja da Noite em um ambiente misógino e segreguista ao extremo, e a ameaça que a família Spellman oferece para seus planos.

Os episódios, menos em quantidade que a primeira parte, mantém um ritmo que várias coisas acontecem em seus 50 e poucos minutos, reforçando a personalidade empoderada de Sabrina e sua luta para reestruturar o meio que se encontra. Além de Sabrina, o mundo mortal também tem seu tempo, adicionando o personagem Theo, que é uma grande resposta para as aflições de Susie (Lachlan Watson) em toda a primeira parte; também há a condição de saúde de Roz (Jaz Sinclair) que acaba se completando, e a maldição presente nas mulheres Walkers se faz presente; e se esperava por um retorno do casal querido da série, tire sua vassoura da chuva, pois Harvey (Ross Linch) segue sua vida – apesar das dúvidas que Sabrina causa nele nos primeiros episódios -, assim como a própria Sabrina, que acaba se envolvendo mais com o feitiçeiro Nicholas (Gavin Leatherwood).

Toda a sensação da segunda parte é estamos assistindo a primeira temporada depois de um hiatus tão comum há alguns anos que com o costume que dona Netflix nos fez se acostumar com temporadas completas, tínhamos esquecido. Existe coerência no desenvolvimento de todos os personagens, desde a busca de Prudence (Tati Gabrielle) em ser oficializada como filha de Blackwood, a questão da filha “sequestrada” de Blackwood pela Zelda; todos estes fatos são revisitados e respondidos. Até Madame Satan (Michelle Gomez) ganha uma jornada mais pessoal para seu crescimento como a serva do senhor das trevas, encerrando seu papel como a grande manipuladora de toda a história.

O Mundo Sombrio de Sabrina conclui bem a primeira parte, que mesmo não precisando de uma história de continuação, a sensação é que foi uma temporada toda escrita e produzida mas separada por momentos chaves como a transformação da protagonista ao abraçar seu lado das trevas. Várias surpresas no episódio final da primeira parte, elementos presentes no especial de Solstício, e várias questões deixadas ao longo de toda a primeira temporada são respondidas, e mesmo que os últimos episódios acabaram sendo resolvidos com clichês e Deus Ex-Machina, Sabrina é exagerada em sua luta por igualdade em uma sociedade exageradamente machista e conservadora, mas que dá voz a muitos assuntos com a mais famosa parábola narrativa que séries teen carregam, misturado a bons elementos sombrios e de terror.

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