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Vidro (Glass)

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M. Night Shayamalan é uma caixinha de surpresa. Diretor de grandes títulos, e outros controvérsias, seu estilo de contar histórias pode ser não-ortodoxa, e sempre tem uma grande virada de narrativa que surpreende os telespectadores. O Sexto Sentido é um grande exemplo de uma obra concisa e com surpresas em sua construção que ditaram que poderíamos ver grandes feitos deste diretor. E nesta expectativa de ver algo inovador, Vidro chega aos cinemas com um hype de ser o primeiro filme que interligará dois filmes anteriores do diretor que construiu um universo único de super-heróis mais mundanos.

A grande promessa desde o lançamento de Fragmentado (2016) foi como – e principalmente, quando – Shayamalan convergiria o universo de Corpo Fechado, de 2000, com o personagem apresentado em Fragmentado. E eis que não precisaríamos esperar mais dezesseis anos para isso: Vidro chegou em pouco mais de dois anos, colidindo o início do universo de super-heróis de Shayamalan com Kevin Crumb. Mas a coesão, mesmo que bem-sucedida, se arrasta em duas horas de um filme complexo.

A história começa como se fosse uma sequência direta de Fragmentado, quando somos reinseridos a David Dunn (Bruce Willis), e os caminhos dele e de Kevin Crumb (James McAvoy) se cruzam. Enquanto o primeiro veste o manto do vigilante, o segundo continua sua empreitada como “o purificador” atrás dos quebrados com a Horda, grupo das personalidades que coexistem dentro do corpo de Kevin que idolatram a Besta. O primeiro enfrentamento destes opostos causa o aprisionamento no hospital psiquiátrico que é mantido Elijah Price (Samuel L. Jackson), ou Senhor Glass.

A partir desse momento toda a narrativa de confinamento tenta contradizer os limites humanos apresentados tanto em Corpo Fechado e Fragmentado, que a primeiro momento fica ainda contido dentro da narrativa, quando ultrapassa o questionamento para o próprio telespectador, que dúvida dos limites tanto de Dunn quanto de Crumb. Isso é até um ponto positivo, criar a dúvida tanto dentro dos personagens quanto do próprio público, mas todo este desenvolvimento é arrastado ao longo de mais da metade do longa, que por mais interesse e importante para a trama, traz o torpor e o desprendimento da atenção a tela.

O grande clímax, quando finalmente temos o personagem título agindo dentro da trama, o filme se conclui rapidamente. Elijah tem, além de ser título, seu passado revelado e desenvolvido… rapidamente, mas até razoavelmente bem. Diferente de Dunn e Crumb que são mais heróis físicos, Glass, que já demonstrou seu potencial estratégico em Corpo Fechado, ainda guarda grandes surpresas para este filme, e junto com McAvoy constrói uma dupla de vilões bem interessante em tela.

O filme não tem um grande ensinamento, ou uma lição de moral, mas fecha a ideia de Shayamalan para seus próprios heróis mais mundanos, diferentes dos deuses da DC e os superhumanos da Marvel, de forma mais que satisfatória, e ainda deixa grandes perguntas para o final, que pode ser a porta de entrada para possíveis continuações. Esteticamente, como já visto nas imagens e pôsteres, o longa seguiu a mesma linha que vimos em Os Defensores: determinaram uma cor para cada personagem, e os saturaram desta cores, e não somente eles, como personagens relacionados a ambos. Dunn e seu filho (Spencer Treat Clark) estão envoltos em verde; Elijah e sua Mãe (Charlayne Woodard) sempre estão em tonalidades arroxeadas, e Crumb e Casey (Anya Taylor-Joy), única sobrevivente de seu ataque em Fragmentado, abusam das tonalidades amareladas.

Vidro teve seu hype compreensível pelo sucesso do suspense psicológico bem-sucedido de Fragmentado, apresenta um início promissor mas se perde no segundo ato, mesmo que criando uma sensação de dúvida tanto para os personagens quanto para o público, que perde seu foco, e então é retomado para a conclusão bem contida, dando respostas mais acertivas para a ligação destes três personagens, e abrindo para novas conspirações, e deixando em aberto possibilidades para uma expansão deste universo que diverge dos clássicos universos consolidado da casa das ideias no cinema, e a que está caminhando para se encontrar da casa dos deuses.

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